From: Miguel Calejo [mc@servisoft.pt]
Sent: quarta-feira, 29 de Setembro de 2004 12:32
To: geral@apple.com.pt
Subject: Carta aberta da Servisoft à Interlog

À Administração da Interlog,
cc: Revendedores

A Servisoft segue desde sempre com interesse, e crescente preocupação no passado recente, a vossa actuação em representação da Apple Computer Inc. em Portugal. Esta preocupação justifica-se por a actividade da Servisoft, desde há 13 anos, incluir a importação e distribuição de numerosos acessórios complementares aos produtos Apple. Acompanhamos pessoalmente com entusiasmo a nomeação da Interlog representante da Apple, assistimos ao seu crescimento e bom trabalho no final dos anos 80, e ao seu posterior declinio.

Deixando de lado óbvias divergências sobre como se deve trabalhar (ou não) a marca Apple em Portugal, nos últimos meses a vossa actuação vem violando princípios éticos comerciais básicos, nomeadamente no que se relaciona com aspectos de concorrência, e (embora aqui admita que é uma questão de opinião) abastardando a magnífica marca que representam, e que de uma forma ou de outra os sócios da Servisoft acarinham continuamente desde 1981. 

Esta violação será talvez um direito que vos assista enquanto empresa portuguesa, mas pelo menos há principios que a vossa representada Apple Computer Inc pratica, e que aliás a isso se obriga publicamente (incluindo aos seus representantes internacionais como a Interlog), perante os investidores e mercado em geral, conforme se pode ler claramente no seu site web, em Investor Relations/Governance/Ethics; princípios esses elementares, particularmente para uma marca como a Apple que para o seu sucesso depende de uma excelente imagem, mais do que as outras, por razões certamente (?) óbvias para os senhores.

No final de 2003, na sequência de dificuldades financeiras parcialmente causadas pela sua má gestão, a "LojApple", um revendedor Apple, apresentou um pedido de recuperação no tribunal do Comércio de V.N.Gaia. Para além de várias irregularidades, o processo (659/03.7TYVNG) inclui associada uma lista de credores, com a Interlog à cabeça, seguida de 3 revendedores conhecidos no mercado Apple como associados e clientes da LojApple, integralmente detidas pelos mesmos sócios e gerentes da LojApple, e assumidamente parte complementar da sua lógica de "central de compras" perante fornecedores como a Servisoft. Refiro-me à DTE, à CCD e à SIMAC Porto, cujos créditos declarados de cerca de 800 mil euros a Servisoft obviamente não reconheceu, até porque até à data nada os justifica além da afirmação da LojApple e das suas facturas, uma vez que o processo peca pela ausência de livros de contabilidade da LojApple de 2002 e 2003, como bem sabem.

Apesar de ciente de toda a situação desde o início do processo de recuperação (contrariamente à Servisoft, que apenas foi "convocada" por edital por não estar entre os 5 maiores "credores", a Interlog foi-o também por carta, e teve portanto oportunidade de intervir mais cedo nos prazos próprios...), em 18 de Agosto de 2004 a Interlog votou, em acordo com a proposta da gerência da LojApple e das outras três empresas dos mesmos sócios (cf. documentação em http://www.servisoft.pt/betterApple), o perdão integral de 80% da dívida da LojApple a todos os credores incluindo a Servisoft, e uma moratória de 7 anos para os restantes 20% ! 

Este voto tem várias leituras incontornáveis:

- A Interlog injectou no acto quase meio milhão de euros (cerca de 90.000 contos) num único revendedor Apple, beneficiando ainda por tabela outro revendedor (Webzone, uma nova empresa detida pelos sócios principais da Minitel e da Multiple Zones, que apareceu associada à LojApple), em detrimento dos restantes, em troca não se sabe de que benefícios.

- Articulando-se numa maioria com as 3 empresas dos mesmos sócios da LojApple, a Interlog forçou o perdão despropositado de perto de um milhão de euros de créditos legítimos que a Servisoft reconhece, nomeadamente o da Interlog, Banco Português de Negócios, Servisoft e outros: Techdata, Finibanco, Banco Espírito Santo, Seg. Social, IRS, etc., assim colectivamente espoliados num calote premeditado.


A Servisoft irá reagir em conformidade face à decisão iminente do Tribunal do Comércio de V.N.Gaia sobre a referida votação, usando todos os mecanismos previstos na Lei para salvaguardar o seu crédito. Paralelamente e em breve, a Servisoft irá também dar conhecimento ao Ministério Público competente deste comunicado e de informação documental de suporte, para que investigue o que houver a investigar.

Parece-nos portanto legítimo interpelar a Interlog "publicamente" (pelo menos no âmbito da comunidade que trabalha comercialmente a plataforma Apple) sobre algumas questões:

- Que benefícios colheu a Interlog, ou porventura os seus accionistas, ou porventura os seus quadros dirigentes, em troca deste inesperado perdão à LojApple e consequente favor aos sócios da Minitel/Multiple Zones, que controlam a Webzone e a Netcetera?

- Porque tolerou a Interlog durante anos o abuso da marca Apple, implícito no nome "LojApple" ? Ainda por cima por uma empresa gerida de forma que só podemos apelidar de incompetente e mesmo criminosa, o que será certamente confirmado num futuro próximo (cf. vários processos em curso por ex-funcionários, bem como o inquérito nº 1762/04.1TAVNG do Ministério Público, na sequência da recusa da devolução de material Servisoft em reserva de propriedade).

- Aceitará a Interlog agora uma encomenda de 90.000 contos de cada revendedor Apple, sem garantias financeiras, para estimular a rede? A Servisoft desde já agradece.

- Terá a Interlog material relevante para a exposição que estamos a preparar para o Ministério Público sobre o sórdido caso da LojApple e associadas? Sabendo-se que correm já vários processos contra a gerência da LojApple, esta questão é naturalmente extensiva aos demais leitores desta carta.

Sem outro assunto,

Miguel Calejo
Sócio-Gerente
Servisoft